CAPÍTULO 05

MISHNÁ 1

Através de dez expressões o mundo foi criado. O que isto vem nos ensinar? Afinal, através de uma só expressão ele poderia haver sido criado! Mas assim foi, para devidamente retribuir aos perversos que destroem o mundo que foi criado através de dez expressões, e para conceder ampla recompensa aos justos que mantém o mundo que foi criado através de dez expressões.


O Rabino Yaakov Kaminetsky escreveu em seu livro que, ao repararmos, veremos que em diversas nações do mundo adotou-se como referência o uso das dezenas, para organização matemática. Por que funciona dessa maneira? Ele explica que a criação do mundo só foi completada por D’us após o pronunciamento de dez expressões, conforme citado na própria mishná. Adão (Adam Harishon) passou essa informação a seus filhos, ensinando-lhes que o décimo número leva à integridade. Isso foi passado de geração em geração, até que nos dias de hoje ainda vemos que todos usam o número dez para se referir a algo que é completo ou perfeito.

MISHNÁ 2

Houveram dez gerações desde Adam (Adão) até Noach (Noé) - para indicar quão grande é Sua paciência; pois todas [essas] gerações irritaram-No repetidamente, até que Ele trouxe sobre eles as águas do dilúvio. Houveram dez gerações desde Noach a Avraham - para que se saiba quão grande é Sua paciência; pois todas essas gerações irritaram-no repetidamente, até que veio Avraham, nosso patriarca, e recebeu a recompensa de todas elas.

MISHNÁ 3

Dez testes, Avraham, nosso patriarca, foi testado, e ele manteve-se firme em todos - para indicar o quão grande era o amor de Avraham, nosso patriarca [por Deus].

MISHNÁ 4

Dez milagres foram realizados para nossos antepassados no Egito e dez sobre o Mar. Dez pragas trouxe o Santo, bendito seja, sobre os egípcios no Egito, e dez sobre o mar. Dez testes nossos antepassados testaram o Santo, bendito
seja, no deserto, conforme foi dito: Testaram-me estas dez vezes e não escutaram Minha voz.

MISHNÁ 5

Dez milagres foram realizados para nossos antepassados no Beit Hamicdash: nenhuma mulher abortou por causa do cheiro da carne dos sacrifícios sagrados; a carne dos sacrifícios sagrados nunca se decompôs; não se viu uma mosca no matadouro; o Sacerdote não sofreu impureza corporal alguma em Yom Kipur; as chuvas não apagaram o fogo da pilha de lenha do altar; o vento não prevaleceu sobre a coluna vertical de fumaça [dissipando-a]; não se encontrou desqualificação no ômer; nem nos dois pães [de Shavuót], nem nos pães da proposição; ficavam comprimidos de pé, porém quando se prostravam tinham amplo espaço; nenhuma serpente ou escorpião causou prejuízo em Jerusalém; e nenhuma pessoa disse a seu semelhante: “O lugar está demasiado apertado
para que possa pernoitar em Jerusalém”.

MISHNÁ 6

Dez coisas foram criadas na véspera de Shabat, no seu crepúsculo. São elas: a boca da terra [para tragar a Corach], a boca da fonte [no deserto], a boca do asno [de Bilam], o arco-íris, o maná, o bastão [de Moshé], o [verme] shamir, as letras [das escrituras], a inscrição [das primeiras Tábuas] e as [próprias] Tábuas. Alguns dizem que também o túmulo de Moshé Rabênu, e o carneiro de Avraham Avinu. E alguns dizem que também os espíritos de destruição, assim como o alicate [original], pois o alicate é feito com
alicate.

MISHNÁ 7

Sete coisas caracterizam um tolo (em hebraico, um Golem) e sete um sábio. Um homem sábio: Não fala diante de quem o supera em sabedoria ou em anos; não interrompe as palavras de seu próximo; não se apressa em responder; pergunta o que é relevante ao tema em questão e responde objetivamente; responde o primeiro assunto, primeiro e o último, por último; com relação ao que não escutou ele diz “não escutei”; e reconhece a verdade. Os opostos [destas virtudes] caracterizam o tolo.


Esta mishná nos ajuda a compreender comportamentos que diferenciam um sábio e um tolo. “Golem”, a palavra utilizada em hebraico, para se referir ao tolo, se refere a um utensílio em estado bruto, que ainda não fora acabado. Dessa forma, podemos inferir que a pessoa que ainda não está completa é classificada como um tolo - mas apesar dessa definição inicial, ela poderá continuar crescendo e aperfeiçoando. Para ilustrar melhor esse ensinamento, vale a pena apresentarmos a história do Rav Chaim Soloveitchik, de Brisk. Aos trinta anos ele foi chamado para dar aulas na Yeshivá de Volozin. Inúmeras pessoas se opuseram à ideia dele ingressar como rabino na yeshivá, pois ainda era muito jovem. A diretoria da instituição resolveu então chamá-lo para fazer um teste e pediu a ele para dar uma aula a seus alunos. Com base nessa experiência, seria possível dizer se o Rav Chaim seria digno de se tornar um rabino na yeshivá ou não. Em meio a aula-teste, um aluno muito inteligente fez  um questionamento que “quebrou” toda a linha de raciocínio que o Rav Chaim havia construído até ali. Depois de refletir um pouco, ele concordou com o jovem aluno, fechou sua Guemará e saiu. Ao ter tal atitude, estava ciente que perdera a chance de se tornar rabino na yeshivá, pois teria comprovado não ser um grande sábio. A diretoria, porém, ao assistir tal episódio, ficou muito admirada com sua conduta e acabou por escolher o Rav Chaim para ser o Rosh Yeshivá (líder da instituição). Se ele tinha grandeza suficiente para reconhecer a verdade e admitir sua falha, com certeza ele seria grande o suficiente para ensinar e liderar seus alunos.

MISHNÁ 8

Sete classes de castigos vêm ao mundo por sete classes de transgressões. Se alguns pagam o dízimo e outros não, uma fome de pânico se estabelece; alguns sofrem fome e outros têm abundância. Se todos decidiram não pagar o dízimo, cria-se uma fome por seca; e [se também decidiram] não separar a chalá, uma fome de destruição se estabelece. A peste vem ao mundo pelas penas de morte enumeradas na Torá que ao Bêt Din [Tribunal Judaico] não foi possibilitado aplicar; e por [utilizar ilegalmente] os frutos do ano sabático. A espada vem ao mundo pela demora da justiça, pela perversão da justiça e por aqueles que emitem decisões de Torá que não estão de acordo com a halachá.

MISHNÁ 9

Os animais selvagens vêm ao mundo pela prestação de falso juramento e pela profanação do Nome [Divino]. O exílio vem ao mundo pela idolatria, pelo incesto, pelo homicídio e por não deixarem que a terra descanse durante o ano sabático. Em quatro períodos [do ciclo sabático de sete anos] aumenta a peste - no quarto ano, no sétimo ano, no ano seguinte ao sétimo, e ao concluir, anualmente, a festividade de Sucót. No quarto ano, por negligenciarem o dízimo aos pobres do terceiro [ano]; no sétimo ano, por negligenciarem o dízimo aos pobres do sexto [ano]; e no ano seguinte ao sétimo, por [não observarem as leis relativas aos] frutos do ano sabático; ao concluir, anualmente, a festividade de Sucót - por sonegarem os presentes dos pobres [na colheita].

MISHNÁ 10

Há quatro tipos [de caráter] entre os homens: o que diz: “o que é meu é teu, e o que é teu é meu”, é ignorante; [o que diz] “o que é meu é meu, e o que é teu é teu” - esta é uma característica intermediária; e alguns dizem que esta é uma característica [do povo] de Sodoma; [o que diz] “o que é meu é teu, e o que é teu é teu” é um chassid (pessoa piedosa, benévola); [o que diz] “o que é teu é meu, e o que é meu é meu” é um perverso.


Desta mishná aprendemos que o chassid é o homem de fé que segue rigorosamente a lei e ainda vai além dela. Não é que ele seja tolo que dá sua carteira para a primeira pessoa que veja passando na rua. O verdadeiro significado é que, se houver alguma discussão na qual as linhas demarcatórias entre “meu” e “teu” não estiverem claras, o chassid prefere ceder algo que pode realmente pertencer a ele a lutar até o fim, ficando porém com dívidas.

MISHNÁ 11

Há quatro tipos de temperamento: facilmente irritável e facilmente apaziguável - sua desvantagem é anulada pela sua vantagem [virtude]; difícil para irar-se e difícil de ser apaziguado - sua vantagem [virtude] é anulada pela sua desvantagem; difícil para irar-se e fácil para ser apaziguado, é um chassid; facilmente irritável e difícil para ser apaziguado, é um perverso.

MISHNÁ 12

Há quatro tipos de estudantes: rápido para captar e rápido para esquecer - sua vantagem é anulada pela sua desvantagem; lento para captar e lento para esquecer - sua desvantagem é anulada pela sua vantagem; rápido para captar e lento para esquecer - este é um bom legado; lento para captar e rápido para esquecer - este é um mau legado.

MISHNÁ 13

Há quatro tipos entre aqueles que fazem beneficência; o que deseja dar, porém que os outros não dêem - este é mesquinho com os outros; que outros dêem e ele não - este é mesquinho consigo mesmo; que ele dê e que outros também dêem, é um chassid [devoto]; que ele não dê e que outros tampouco dêem, é um perverso.

MISHNÁ 14

Há quatro tipos entre aqueles que vão à Casa de Estudos: o que vai mas não participa [do estudo] obtém a recompensa por ir; o que pratica [o estudo em casa] porém não vai, obtém recompensa pelo ato [de estudar]; o que vai e participa [do estudo] é um chassid; e o que não vai nem participa, é um perverso.

MISHNÁ 15

Há quatro características entre os que se sentam diante dos Sábios. [Alguns assemelham-se a] uma esponja, um funil, um coador e uma peneira; uma esponja, que absorve tudo; um funil, que toma de um lado e verte do outro; um coador, que permite que o vinho flua e retém o sedimento; e uma peneira, que permite que passe o pó da farinha e retém a sêmola.

MISHNÁ 16

Todo amor que depende de um determinado motivo - quando tal motivo desaparece, o amor cessa; mas se não depende de um determinado motivo - nunca cessará. Qual é o [exemplo de] amor que depende de um motivo? O amor de Amnon e Tamar. E qual é o [motivo de] amor que não depende de motivo algum? O amor de David e Yonatan.


A diferença entre esses dois tipos de amor descritos é enorme. O primeiro caso representa um relacionamento proibido, entre um irmão e sua irmã. É uma atração entre duas pessoas que se baseiam em um motivo vão: o amante deseja se beneficiar de alguma maneira de seu relacionamento com o amado. Até que seu desejo é saciado e então "Amnon a odiava ... com um ódio maior que o amor com que a amara", conforme consta descrito no livro de Shmuel.

Por outro lado, o amor entre David e Yonatan começou como uma amizade comum entre duas pessoas sem conexão intrínseca entre si, uma amizade que se baseava na apreciação e no desfrute das qualidades positivas da outra. A amizade deles se transformou em um amor verdadeiramente altruísta a ponto de Yonatan arriscar sua vida por David, mesmo que a própria existência de David fosse em seu prejuízo: Yonatan., o filho mais velho do rei Saul, estava inicialmente destinado a suceder seu pai como rei de Israel.

Quando Saul soube que David havia sido ungido pelo profeta Samuel para ser o próximo rei, Saul desejou matá-lo; e foi Yonatan que salvou David repetidamente dos planos de Saul, dizendo a David: "Você será rei sobre Israel, e eu serei o seu segundo".

Um homem e uma mulher entram em um relacionamento pois possuem uma profunda necessidade de se sentirem inteiros e completos; essaa necessidade faz acontecer a união. No entanto, em uma amizade entre dois homens, cada parte sente-se potencialmente ameaçada pela outra. E a amizade entre o rei David e Yonatan, descrita no livro de Shmuel, é considerada uma amizade na qual não havia cobrança e mesmo assim cada um dava o máximo de si próprio.


MISHNÁ 17

Toda discussão por amor ao [que habita no] Céu terá um resultado duradouro; e aquela que não é pelo amor ao Céu, não terá um resultado duradouro. Qual é uma discussão por amor ao Céu? A discussão entre Hilel e Shamai. E qual não é por amor ao Céu? A discussão de Corach e toda sua facção.

MISHNÁ 18

Todo aquele que causa com que muitos tenham méritos, não haverá pecado que venha por sua causa; mas aquele que causa o pecado de muitos não se concederá a ele a oportunidade de arrepender-se. O próprio Moshé foi meritório e fez com que muitos obtivessem méritos, [motivo pelo qual] o mérito de muitos é atribuído a ele, conforme foi dito: Ele [Moshé] cumpriu a justiça de Hashem e Suas ordens junto com Israel. Yaravám ben Nevat, pecou e causou o pecado de muitos, [motivo pelo qual] o pecado de muitos é atribuído a ele, conforme foi dito: Pelos pecados de Yaravam, que ele cometeu e fez Israel cometer.


O livro “Os Deveres do Coração - Chovot Halevavot”, de autoria de Bachia Ibn Pacuda explica que se houver uma pessoa que alcançou um nível muito elevado no serviço a D’us, chegando quase ao nível de um profeta, ele ainda tem menos méritos do que aquele que faz com que os outros cumpram mitzvót ou os aproximem do caminho correto. Aquele que aproximam os que se afastaram da Torá tem muitos méritos, pois além dos seus próprios, ele tem também os méritos de todas as mitzvot que conseguiu que os outros fizessem.

MISHNÁ 19

Todo aquele que possui as três características seguintes é dos discípulos de Avraham, nosso patriarca; e as três características opostas, é dos discípulos do perverso Bilam. Os discípulos de Avraham Avinu, possuem bom olhar, espírito humilde e alma dócil. Os discípulos do perverso Bilam possuem mau olhado, espírito arrogante e alma ambiciosa. Qual é a diferença entre os discípulos da Avraham Avinu, e os discípulos do perverso Bilam? Os discípulos de Avraham Avinu, comem [gozam dos frutos de suas boas ações] neste mundo e herdam o Mundo Vindouro, conforme foi dito: Para fazer com que os que Me amam herdem um bem eterno [o Mundo Vindouro], e seus depósitos encherei [neste mundo]. Mas os discípulos do perverso Bilam herdam o Guehinom [purgatório] e descem ao abismo mais profundo, conforme foi dito: E Tu, Deus, os atirarás ao abismo mais profundo; os homens sanguinários e traiçoeiros não viverão a metade de seus dias; mas eu
confiarei em Ti.

MISHNÁ 20

Yehuda ben Tema disse: Seja valente como o leopardo, leve como a águia, ágil como o cervo, e forte como o leão, para cumprir a vontade de teu Pai [que está] no céu. Ele costumava dizer: o insolente se encaminha ao Guehinom, mas o envergonhado ao Paraíso. Que seja a Tua vontade, Hashem, nosso Deus e Deus de nossos pais, que se reconstrua o Beit Hamicdash breve em nossos dias, e outorga-nos nossa porção em Tua Torá.


Quanto a mishná diz que devemos ser valentes como o leopardo, Bartenura diz que nunca devemos ter vergonha de perguntar algo que não entendemos, pois devemos ser até meio atrevidos e corajosos, perguntando tudo o que precisarmos. Outros comentaristas explicam que essa comparação com o leopardo foi dita em relação ao cumprimento das Mitzvot.

Os dizeres que citam que devemos ser leves como uma águia, que voa velozmente possuem duas interpretações interessantes que merecem ser apresentadas: Bartenura diz que as pessoas devem ser rápidas em fazer revisão sobre seus estudos e ligeiras em aprender aquilo que foi estudado; e o Rav Volbe salienta que a águia é uma das aves mais pesadas e, mesmo assim, ela consegue voar rapidamente. Ele complementa dizendo que as águas se parecem com os homens, pois somos pesados, temos uma vida difícil, mas temos asas que podem nos tornar leves para voar.

O Rav Volbe esclarece que as asas do homem são a simchá (alegria). E a pessoa deve estar contente com o que tem e dessa forma conseguirá se tornar leve, não direcionando seu foco apenas em seus problemas (tornando-se então pesada e incapaz de voar). A mishná, diz ainda que devemos ser ágeis como o cervo e fortes como o leão. Sobre isso o Bartenura diz que a pessoa deve ser ágil para executar uma mitzvá e forte para vencer a sua má inclinação.


MISHNÁ 21

Ben Bag Bag disse: Estude-a e estude-a [a Torá], pois tudo nela está; olhe profundamente nela; envelheça e amadureça nela, e não te movas de seu lado, pois não há nada mais edificante para ti que ela. Ben Hei Hei disse: A recompensa é proporcional ao esforço diligente.

MISHNÁ 22

Ele costumava dizer: aos cinco anos de idade, [deve-se começar] o estudo das Escrituras; aos dez - o estudo da Mishná; aos treze - [a obrigação de cumprir] as mitsvot; aos quinze - o estudo da Guemará [o Talmud]; aos dezoito - o matrimônio; aos vinte - a perseguição [de um meio de subsistência]; aos trinta - [se alcança] a força plena; aos quarenta - a compreensão; aos cinqüenta - [o talento para dar] conselho; aos sessenta - a velhice; aos setenta - a velhice madura; aos oitenta - [um sinal de] força [especial]; aos noventa - o corpo se enruga; aos cem - é como se estivesse morto, desaparecido e suprimido do mundo.