O Pirkei Avot começa trazendo a citação de outro tratado talmúdico:

Todo Israel tem um quinhão no mundo vindouro, conforme está escrito: “E Teu povo é todo de justos; eles herdarão a terra para sempre; eles são um ramo de Meu plantio, a obra de Minhas mãos, da qual Me orgulho” (Isaías 60,21).

 

CAPÍTULO 01

MISHNÁ 1

Moshe recebeu a Torá no Sinai e a transmitiu a Yehoshua; Yehoshua aos Anciãos; os Anciãos aos profetas; e os Profetas transmitiram-na aos Homens do Grande Conselho Rabínico. Estes disseram três coisas: Sejam cautelosos no julgamento; formem muitos discípulos; e ergam uma cerca de proteção para a Torá.

Esta mishná cita a transmissão da Torá desde sua outorga, há mais de 3.300 anos, até os dias dos Tanaím, que são os rabinos mencionados na Mishná. Esse primeiro estudo conclui com os conselhos transmitidos pelos membros do Grande Conselho Rabínico. Como veremos a seguir, grande parte deste primeiro capítulo apresentará os maiores sábios das primeiras gerações da Mishná, transmitindo as principais mensagens que passaram à sua geração e às gerações futuras.

MISHNÁ 2

Shimon, o Justo, foi um dos últimos [membros] da Grande Assembléia. Ele costumava dizer: O mundo apoia-se sobre três coisas – (o estudo da) Torá, o serviço (a D’us) e os atos de bondade.

O rabino Ovádia de Bartenura explicou que este trecho ensina o motivo pelo qual D’us criou o mundo.

MISHNÁ 3

Antignos (da cidade) de Socho, recebeu [a tradição oral] de Shimon o Justo. Ele costumava dizer: Não sejam como os servos que servem a seu amo apenas com o intuito de receber a recompensa; mas sim, sejam como os servos que servem a seu amo sem o intuito de serem recompensados; e que ao temor do (que habita nos) Céus paire sobre vocês.


Antignos viveu na época em que a Grécia antiga dominava a maior parte do mundo civilizado, militar e cultural. O Helenismo era a cultura dominante e de uma forma menos danosa fez-se evidente através do próprio nome do autor desta Mishná.

MISHNÁ 4

Yossi ben Yoézer (da cidade) de Tseredá e Yossi ben Yochanan (da cidade) de Jerusalém, receberam [a tradição oral] deles [dos precedentes]. Yossi ben Yoézer de Tseredá, disse: Que a tua casa seja um local de reunião para os Sábios; sente-se no pó aos pés deles; e beba sedento as suas palavras.


MISHNÁ 5

Yossi ben Yochanan de Jerusalém, disse: Que sua casa esteja plenamente aberta [para os hóspedes]; trate os pobres como membros de sua família; e não converse excessivamente com a mulher. Eles o dizem a respeito da própria esposa, quanto mais a esposa do próximo. Por isso, os Sábios disseram: Todo aquele que conversa excessivamente com uma mulher prejudica a si próprio, desperdiça seu tempo de estudo de Torá e por fim herdará o Guehinom (Purgatório).


Qual a conexão entre o trecho da Mishná que diz “Que sua casa esteja plenamente aberta” com o techo “não converse excessivamente com a mulher”? O Chassid Yaavetz explica que o ensinamento inicial é de não darmos apenas dinheiro para os pobres, sendo encorajado recebe-los em casa, conversando com eles e dando-lhes apoio moral ou consolo. Quando a pessoa carente for uma mulher, ela obviamente é digna de atenção e apoio, mas convém ter cuidado para não passar por excessos que possam levar a atos pecaminosos.

MISHNÁ 6

 

Yehoshua ben Perachyá e Nitai de Arbel receberam [a tradição oral] deles [dos precedentes]. Yehoshua ben Perachyá disse: Estabeleça para ti um rabino; adquira para ti um amigo, e julgue toda pessoa favoravelmente.

É curioso que esse trecho orienta a escolher um rabino (mestre) e a “adquirir” um amigo. O rabino será uma pessoa em quem confiamos e podemos seguir suas palavras. O amigo é aquele que estamos preocupados em fazer-lhe o bem e que ele também terá essa preocupação recíproca conosco. Um oferecendo apoio ao outro.

A Guemara, no Tratado de Taanitt (7a) conta sobre um rabino que disse: “aprendi muita Torá de meus Rabinos. De meus amigos mais do que deles e de meus alunos, mais ainda do que todos (os anteriores)”. Se os alunos são tão importantes, por que essa Mishná não cita nada sobre eles? A verdade é que na primeira Mishná do Pirkei Avót já consta o ensinamento de “formar muitos discípulos”.

MISHNÁ 7

Nittai de Arbel disse: Mantenha-se distante do mal vizinho; não te associe a um homem perverso; e não abandones a crença na retribuição [Divina].

MISHNÁ 8

Yehudá ben Tabbai e Shimon ben Satach receberam [a tradição oral] deles [dos precedentes]. Yehudá ben Tabbai disse: não aja como conselheiro [quando fores juiz]; quando os litigantes estiverem de pé à sua frente, considere-os ambos culpados; mas quando partirem de ti, considere-os ambos inocentes, desde que tenham aceitado a sentença.

MISHNÁ 9

Shimon ben Shatacj disse: Interrogue as testemunhas minuciosamente; e seja cauteloso com as tuas palavras, pois talvez por meio delas aprendam [as testemunhas ou os litigantes] a dizer mentiras.

MISHNÁ 10

Shemayá e Avtalyon receberam [a tradição oral] deles [dos precedentes]. Shemayá disse: Ame o trabalho; abomine altos cargos; e não procure intimidade com com o poder governante.


Para não nos corrompermos, devemos evitar a ganância e a constante busca em satisfazer nosso ego. Existe um ensinamento no Talmud, no tratado de Eruvin (13b), que complementa essa reflexão, que diz: “Quem busca a grandeza, a grandeza foge dele e, inversamente, quem foge da grandeza, a grandeza o busca”.

MISHNÁ 11

Avtalyon disse: Sábios, sejam cuidadosos com vossas palavras, pois poderão ser penalizados ao exílio e serem banidos para um lugar de águas malignas [heresia]; seus discípulos que vos seguirem até lá poderão beber delas e perecer,
e em consequência o nome do [que habita nos] Céus será profanado.

MISHNÁ 12

Hilel e Shamai receberam deles [dos sábios citados na Mishná 10]. Hilel disse: Seja como os discípulos de Aharon, ama a paz, procura a paz, ama as criaturas e as aproxime para a Torá.


Aprende-se da tradição judaica que quando Aharon (irmão de Moshe) sentia que a pessoa tinha características ruins, ou quando falavam que ela era má e havia transgredido a lei, ele costumava cumprimentála primeiramente, para mostrar sua afeição e para falar com ela com mais frequência. Essa pessoa então se envergonharia e diria a si mesma: “Ai de mim! Se Aharon soubesse dos meus pensamentos íntimos e ações más, ele não se permitiria nem olhar para mim, muito menos falar comigo. Porém ele me considera uma pessoa boa; por isso, eu concretizarei sua opinião e me arrependerei”. Assim ela passava a ser um de seus discípulos e aprendia com ele através dessa sua bela virtude. Consta ainda em Malaquias 2:6, que D’us disse de Aharon: “Com harmonia e justiça ele andou Comigo, e afastou muitos do pecado”. E quando Hillel formulou esta regra, ele tinha essa valorosa virtude em mente.

MISHNÁ 13

Ele costumava dizer: Aquele que persegue a fama perde sua reputação; aquele que não aumenta [os seus conhecimentos de Torá] os diminui; aquele que se recusa ao estudo [da Torá] merece a morte; e aquele que explora a coroa [da Torá, para seus próprios interesses] perecerá.

MISHNÁ 14

Ele costumava dizer: Se eu não for por mim, quem será por mim? E se estou apenas para mim, o que sou eu? E se não agora, quando?


O grande sábio Yisrael Meir (HaKohen) Kagan, mais conhecido como Chafets Chaim, compara o ser humano médio, quanto a forma como uma pessoa de férias escreve um cartão postal a seu amigo. No alto vão a data, a saudação, as apresentações formais. Sem o devido cuidado, ele perceberá que já atingiu quase o fim do cartão, e então para aproveitar o espaço que resta, passa a escrever em letras miúdas ocupando bem até a margem.

Nos primeiros anos de vida o ser humano “rascunha” tanto de seu tempo com trivialidades, que chegando mais próximo do final de sua vida, passa a refletir sobre seus atos.

MISHNÁ 15

Shamai disse: Estabeleça para ti um tempo fixo para teu estudo da Torá; fale pouco e faça muito; e receba toda pessoa com uma face alegre [afabiblidade].

MISHNÁ 16

Rabban Gamliel costumava dizer: Estabeleça para ti um mestre e abstenha-se da dúvida; e não dê o dízimo por valor adivinhado [cálculo aproximado], mesmo excedendo a quantidade estipulada.

MISHNÁ 17

Shimon, seu filho, disse: Todos os dias de minha vida fui criado entre os Sábios e não encontrei nada que fosse melhor para a pessoa que o silêncio; não é o estudo, mas sim a prática que é o principal; e todo aquele que conversa demais
traz o pecado.

MISHNÁ 18

Rabban Shimon ben Gamliel disse: O mundo perdura graças a três coisas: a verdade, a justiça e paz, como foi dito: “Verdade e julgamento de paz você deve administrar em seus portais.” (Zecharyá 8:16).


Essa mishná apresenta uma aparente contradição com a segunda mishná estudada no Pirkei Avot. Tosfot Yom Tov pergunta: se o estudo da Torá, o serviço a D’us, e os atos de bondade foram motivos suficientes para D’us criar o mundo, por que ela nos apresentou agora outros três motivos diferentes?

Explica o Bartenura, que aqui não estão sendo apresentados os motivos da existência do mundo. Nessa mishná constam as bases pelas quais os seres humanos conseguem viver juntos em sociedade e harmonia. Sendo eles: a verdade, a justiça e a paz.